por Ana Maria Freitas
Uma ampla listagem deve relacionar todos os itens necessários ao movimento do restaurante. São primordiais prontidão absoluta e velocidade nessa inspeção, porque delas dependem tanto do cheirinho bom que exala da panela quanto a satisfação do cliente bem atendido Há quem diga que tudo começa com a eleição do cardápio, ou melhor, com a receita do prato. Mas, desde que tudo já esteja em funcio-namento, é nas compras que está o X da ques-tão. Sob esta ótica, é necessário planejar tudo ao mesmo tempo, mantendo em foco uma infi-nidade de itens que vão dos guardanapos aos equipamentos de cozinha. Seria essa a única alternativa de se chegar a um custo–benefício favorável e sem desperdícios. Sobre um ponto, nutricionistas, professores e experts na monta-gem de uma casa concordam: há a necessidade do mais rigoroso domínio das operações, pois disso depende o êxito do empreendimento. “Muitas vezes, a receita expressa um sonho (de montar um negócio na área de culinária), mas para realizá-lo a pessoa deve contar com inúmeras variáveis (e possibilidades)”, sustenta Heloísa Helena Medeiros Duarte, há dez anos consultora.
| Formada
em administração hoteleira, Heloísa afirma que uma listagem completa
decompras envolve de 300 a 400 itens. “Para um bufê a quilo,
são indispensáveis ainda mais tópicos do que no à la carte. A relação
deve identificar tanto os descartáveis quanto a toalha de mesa. E
o comprador precisa fazer permanentemente uma checagem de tudo”,
sugere ela. Responsável pela reformulação de algumas casas em São
Paulo, ela garante que, ao observar os procedimentos, é possível detectar
desperdícios e evitar que o dinheiro saia pelo ralo. Com Heloísa concorda
Tereza Guerra, chef de cozinha que tem no currículo a coordenadoria
de gastronomia da Faculdade Anhembi-Morumbi. “Da definição do
restaurante sai o cardápio, a estrutura, o projeto e a arquitetura.
Para cada tipo, elege-se o que é vital e quais os produtos adequados
para as receitas”, formaliza. Segundo Tereza, quando inserida
numa categoria determinada, a cozinha escolhe o seu rol de insumos,
os quais vão necessitar de especificação. “De uma cenoura ao
produto mais caro, tudo tem de ser identificado. A cenoura é média?
É preciso esmiuçar o tipo, baseando-se no perfil do estabelecimento”,
ensina. Neste campo, todos os especialistas compartilham da mesma
opinião: uma genuína lista de compras brota do perfil de cada lugar.
Ao montar um negócio na área de culinária, tendose definido o foco,
selecionam-se as receitas e elabora-se uma ficha técnica de cada uma
delas. “Muitas vezes, uma pessoa que não é do ramo escolhe o
lugar, a estrutura e aí vai pensar no cardápio. Não dá certo. As receitas
têm de ser a primeira coisa a ser pensada”, sintetiza Tereza.
E cada receita terá uma ficha com os ingredientes que serão multiplicados
pelo número de pratos a serem servidos. O vice-presidente da Associação
Paulista de Nutrição (Apan), Wellinton Donizeti Popolim, conta que
nos seus projetos de implantação, depois de identificados os pratos
e os insumos, ele procura os fornecedores, escolhendo aqueles que
serão parceiros. “Produtos existem aos milhões, mas os melhores
fornecedores é preciso escolher com base na parceria.” A partir
daí, pode-se pensar em selecionar por preço. “No momento que
você tem a especificação, percebe a variedade, o que dará um leque
de custo. Mas tudo depende da especialidade e do enfoque da casa,
pois muitas vezes o barato sai caro.”O custo, uma variável interessante
que deve ser ponderada, não pode ser o único fator a ser considerado.
“Senão você acaba trocando gato por lebre, gerando uma situação
na qual quem paga é o restaurante. Isso afugenta a clientela”,
alerta Popolim. Heloísa Helena concorda. E cita um exemplo: numa ocasião,
na compra de cream cheese de 220 gramas, que possui uma determina-da
consistência, o comprador quis economizar e trouxe um tambor. “Não
dá certo. O produto é diferente. É preciso partir para uma nova receita.”
Na listagem, a cozinha tem de sinalizar as marcas, apontando o que
não pode ser alterado em função da qualidade do produto. O que está
em jogo é o atendimento final e a própria reputação da casa. O ingrediente
pode até ser mais barato desde que passe pela
aprovação da cozinha.
Renato Ambrosino, proprietário do restauran-te Pepper, que segue o mo-delo self-service, tem sis-temática própria de geren-ciamento: estocar, nem pensar. Num pequeno al-moxarifado acondiciona o mínimo de arroz, feijão, óleo açúcar, café, sal, fari-nha, nozes, passas, azeitona, extrato de tomate e enlatados. Ele faz o abastecimento todas as segun-das-feiras no Ceasa, onde obtém os horti-frutigranjeiros. Às quintas-feiras e aos sábados opta pelo varejão, onde compra direto da hor-ta. Para as carnes, Ambrosino dispõe de um atacadista que, semanalmente, entrega em seu estabelecimento. Mas a carne é porcionada no próprio Pepper. “No começo, o segredo é fazer uma base limitada para o que se pretende aten-der. Depois, pode-se ampliar.” Com 16 anos de casa, ele sustenta já ter a dimensão exata do volume, prevendo se este aumenta ou diminui. Quando o prato tem mais saída, como o bife à parmeggiana, por exemplo, ele subtrai a demanda de outro, como o picadinho. Sílvio Fialdini, proprietário há 30 anos da rotisseria La Reggiana, participou como sócio da implantação do restaurante Supra. Confor-me Fialdini, se o proprietário não dispuser de feeling para definir sozinho essa listagem e cor-rer atrás de tudo, o melhor será identificar um comprador e contratá-lo para que faça esse papel. “No Supra, formei o comprador.” Já Rogério Soares, gerente de compras do Skye, restaurante do hotel Unique, segue à risca as recomendações dos chefs, que exigem produ-tos frescos. Diariamente, compra hortifru-tifrutigranjeiros e mantém um estoque míni-mo. “No começo, a demanda do dia-a-dia in-dica as solicitações até se determinar exata-mente o que comprar. É a rotina que confirma as previsões.” Há três anos atendendo às cozi-nhas internacional, japonesa e pizza a lenha do fácil de cotar. “O comprador tem o controle e torna a negociação transparente. O desafio é fazer entender que existe um procedimento. É uma rotina muito corrida”, constata. Sem esse olhar atento, entretanto, a har-monia está longe de ser alcançada, concordam os especialistas. Bons produtos podem ser im-portantes, mas para garantir a qualidade final é preciso essa checagem esmerada de tudo. “Todos os detalhes se revelam muito impor-tantes”, conclui Tereza Guerra. É Welliton Popolim quem arremata: “Como em todos os demais negócios, o ideal é ter planejamento e calcular.” O resultado desse empenho detalhista, avaliam, é uma produção culinária azeitada e sem sobressaltos, com sabor de administração de sucesso. |

Contatos:
Heloísa Helena Medeiros Duarte
Tel.: (11) 3871-0463
h2heloisa@hotmail.com www.h2consultoria.com.br
Renato Ambrosino
Tel.: (11) 3168-3688
reambrosino@uol.com.br
Rogério Soares
Tel.: (11) 3055-4700
compras@hotelunique.com.br
Sílvio Fialdini
Tel.: (11) 5543-2099
silvio@lareggiana.com.br
Tereza Guerra
Tel.: 9950-080811
ttguerra@terra.com.br
Welliton Donizeti Popolim
Tel.: (11) 9646-2337
apanutri2@terra.com.br
Skye, Rogério define que a parte inicial do trabalho com refeições é de criação. Idéias, amostras, mudanças, testes dos padrões de qualidade identificam-se às marcas e aí fica mais
Cozinha Profissional 89 www.cozinhaprofissional.com.br